quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Zenchishiki - Qualidades de um mestre

O termo “Zenchishiki” aparece no Sutra do Lótus para indicar duas qualidades importantes reconhecidas pelo Bodisatva, qualidades que podem ser aplicadas aos mestres, bem como para a identificação deles... É muito importante falarmos sobre esse tema, uma vez que temos muitos mestres diplomados aqui no Brasil, mas poucos que realmente manifestam as qualidades essenciais de um mestre na vida cotidiana. Recentes acontecimentos atestam para essa realidade e mesmo para uma inversão de valores onde, quem mantêm uma postura adequada é taxado de charlatão ou picareta, enquanto os desprovidos de índole recebem grande reconhecimento da massa; sortudo é quem encontra um mestre em todos os quesitos, não apenas na capacidade de “bater” em outra pessoa, como priorizam muitos estudantes de artes marciais na atualidade – Ser mestre é algo muito além de tudo isso.

Tive a oportunidade de receber instruções de um dos maiores mestres do Karate-Do no Brasil, nos últimos anos de sua vida, além disso sempre gostei de estudar as obras dos grandes mestres do passado para assim conseguir obter o máximo de informações construtivas; mas mesmo assim é muito difícil assimilar todas as qualidades necessárias! Quando me deparei com o termo Zenchishiki, imediatamente associei o melhor resumo para as qualidades de um mestre. No Sutra em questão o Bodisatva contextualiza o termo como “bom amigo, bom conhecimento” e isso é muito profundo, apesar de parecer simples... Na forma como os mestres lecionam atualmente é muito difícil uma atenção integral ou personalizada, portanto o mestre nem sempre se enquadra na qualidade de “bom amigo”, entendendo que “bom amigo” é diferente de “amigo”! Observo que, nem todos que treinam conosco têm a mesma proximidade que tenho com o mestre e isso também é reflexo da índole do aluno.

Existem ocasiões onde treino com meu mestre e outras onde apenas conversamos sobre Karate-Do, sem dizer aquelas onde bebemos cerveja e falamos sobre tudo, menos sobre Karate-Do! Um “bom amigo” compartilha informações sobre tudo, não somente sobre uma prática que realizam juntos, é por isso que todo mestre é “amigo”, mas não “bom amigo”; talvez, para o iniciante, isso não seja tão importante como o estudo das técnicas, entretanto, aprendemos bastante sobre Karate-Do enquanto não estamos falando sobre Karate-Do. Como muitos alunos se aproximam visando apenas graduações ou algum favor é justificável que muitos mestres adotem uma postura mais restrita, podendo assim omitir a imagem de “bom amigo”! Sobre isso costumo usar a frase “o mestre se revela quando o aluno está pronto”... Basicamente, a relação mestre-discípulo é bela e ao mesmo tempo conturbada, basta observar quantos desentendimentos surgiram entre mestres e alunos dentro do Karate-Do, com o inevitável surgimento de divisões o novos grupos.

O segundo ponto diz respeito ao “bom conhecimento”, indicando também que “conhecimento” é diferente de “bom conhecimento”! O bom conhecimento é amplo e não se resume apenas às capacidades e habilidades técnicas dentro de uma arte marcial, mas também aos aspectos filosóficos e espirituais que envolvem o estudo das artes marciais; esse eixo “filosófico-espiritual” é algo que pretendo abordar bastante em 2021, pois se trata de uma área muito importante e negligenciada na prática contemporânea. Existem mestres que foram a Okinawa e trouxeram conhecimentos úteis a nossa prática, mas lhes faltam algo... O bom conhecimento reflete uma perspectiva de mundo diferenciada, ampliada por nossas experiências; muitas vezes o conhecimento destrói o bom conhecimento, pois a arrogância do conhecimento pode nos fechar para outras oportunidades e aprendizados... Conheço karatekas de 1°Dan que acreditam saber tudo, enquanto alguns de 5°Dan e 6°Dan permanecem recebendo instruções.

O mestre precisa ter conhecimento para conduzir os iniciantes, mas também precisa ter bom conhecimento para levar os iniciados ao estágio maior e avançado, caso contrário os iniciados terão uma evolução deficiente... É por isso que existem iniciantes com maior esclarecimento que iniciados no Karate-Do! Mas não se engane, muitos mestres transmitem apenas “conhecimento” propositadamente, pois entendem que o aluno ainda não está pronto. Acredito que essa seja uma forma simplificada para definir as qualidades de um mestre, bom amigo e bom conhecimento, em meio a tanta propaganda e exposições de “grandes mestres” na mídia, muitas vezes pagando quantias altas para saírem em revistas... Apesar de tudo, muitos karatekas ainda vão perder tempo e caráter com pseudo-mestres, dando continuidade ao círculo vicioso que acaba denegrindo mais e mais a nossa arte – Não se deixe enganar, procure bons mestres e não tenha receio em mudar quando perceber algo errôneo na conduta de supostos mestres.