sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Kokyu-Ho e Heishugata - Treinamento diário

O que tenho treinado diariamente, pela manhã, são Kokyu-Ho e Heishugata, dois exercícios importantes, mas que nem sempre recebem à devida atenção! 


Kokyu-Ho é um termo genérico para “exercício respiratório” ou “método respiratório”, existindo divergências e variações dentro das várias escolas marciais que também se dedicam ao aspecto terapêutico; basta citar que Nishino-Sensei desenvolveu o método Sokushin-Kokyu-Ho, bastante influente no Aikido, enquanto Miyagi-Sensei introduziu o Ibuki no Goju-Ryu, sem mencionar o Joshin-Kokyu-Ho de Usui-Sensei no Reiki. No Goju-Ryu os Heishugata possuem aspecto bélico e Bunkai, entretanto, com o trabalho de Miyagi-Sensei (a partir de influências chinesas) eles receberam uma abordagem terapêutica! Defendo veementemente a ideia de que os Heishugata são uma espécie de Chi-Kung, portanto atuam como arte marcial e terapia; o Karate-Do mais popular (com ênfase primordial em Shiai) acaba estreitando a visão, por isso é comum que os Heishugata sejam negligenciados em todos os sentidos.

Ano passado (2020) comecei a estudar Tai-Chi-Chuan e Chi-Kung no intuito de compreender melhor e resgatar muitos pontos dos Heishugata, algo que foi extremamente positivo! No segundo semestre acabei tendo a oportunidade de conhecer e praticar o Sokushin-Kokyu-Ho de Nishino-Sensei, logo em seguida tive minha iniciação em Reiki, conhecendo o Joshin-Kokyu-Ho de Usui-Sensei, ambos os métodos construtivos em minha pesquisa particular. Certamente, tive maior influência dos métodos japoneses (Joshin-Kokyu-Ho e Sokushin-Kokyu-Ho), uma vez que pude praticá-los por mais tempo e com instrutores de alta graduação; hoje, observando bem os Heishugata, percebo que todo esse conhecimento está ali inserido, pois não existe outra razão para a forma e sincronização da respiração em Sanchin e Tensho, especialmente quando precisamos alterar tais pontos no Bunkai.

Embora fale bastante sobre Sokushin-Kokyu-Ho, acabei recebendo iniciação em Usui-Shiki-Reiki-Ryoho em 2020, agora estudando o próximo nível, por isso optei por usar o termo Joshin-Kokyu-Ho, que é mais comum no Reiki (onde tenho iniciação formal); com base nessa questão, minha prática diária matinal tem sido focada em Joshin-Kokyu-Ho e Heishugata (Sanchin-Tensho), entretanto, usando os Heishugata com a mesma abordagem terapêutica do Reiki... Na verdade, em Okinawa, Sanchin é usado assim. Os resultados são imediatos, algo que se expande para o resto do dia... Nos primeiros dias os resultados foram pequenos (mais reais), passando por uma melhor assimilação com o avanço e permanência da prática; a disposição fica melhor, o sono acaba sendo mais aproveitado e até mesmo a digestão fica regulada! Os benefícios são amplos e o melhor de tudo é poder potencializar o Karate-Do.

Outro ponto que tenho experimentado, e que foge da questão terapêutica, é o conceito de Kokyu-Ho nas técnicas de projeções, como ocorre com o Kokyu-Nage do Aikido... É certo que o Karate-Do possui um sistema próprio de uso da respiração durante a aplicação das suas técnicas, entretanto, acredito que boa parte desse conhecimento foi perdido ou substituído por métodos mecânicos e de inclinação desportiva. Quando realizamos um trabalho adequado da respiração, através dos Heishugata e Kokyu-Ho, começamos a compreender como a energia brota do meio, aspecto essencial do Chi-Kung; com essa conscientização e inteligência corporal, podemos direcionar tudo no Bunkai dos Heishugata! Sobre isso, gosto sempre de mencionar uma apresentação realizada pelo mestre Morimasa Yamauchi (em 2019 no Enbukai), usando o Kata Tensho para controlar e redirecionar a força do adversário.


*Embora pareçam simples e bobos, esses exercícios possuem um poder extraordinário em nossas vidas!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Tóquio - Seu guia passo-a-passo

Ainda não tive a oportunidade de conhecer Tóquio, mas acabei encontrando um excelente guia da capital japonesa e tenho me divertido muito com a geografia e alguns pontos turísticos da cidade; embora seja “apenas” um guia-mapa ou mapa-guia, é possível extrair bastante informação curiosa e construtiva! Sou fã da cultura japonesa e certamente a capital nacional é algo muito interessante, um mar de informações e possibilidades. O guia intitulado “Tóquio – Seu guia passo-a-passo” foi publicado pela “Publifolha” em 2008 (ano do centenário da imigração japonesa no Brasil), contando com a coordenação de Rodrigo Villela e Soraia Pauli Scarpa; minha ideia era apresentar essa obra durantes os eventos dos jogos olímpicos que acabaram sendo adiados para 2021, entretanto não vou esperar a data! Apresento hoje esse livro/ guia que tem sido “muito importante” para algumas pesquisas particulares.

Tóquio é a capital japonesa, contando com cerca de 36 milhões de pessoas na região metropolitana! Tóquio possui bastante diversidade podendo ir do aspecto profundamente tradicional de Asakusa para o então “pop” Shibuya... A cidade é considerada uma das mais importantes e populosas do mundo, também o centro financeiro e tecnológico do Japão, na verdade, acredito eu, o centro financeiro e tecnológico mais importante de toda a Ásia, visto que o país é uma referência (desde Meiji) na região. Sua origem data de 1457, sob o nome de Edo e por criação do então Shogun Tokugawa Iyeasu, tornando-se a capital da nação, centro do Governo Tokugawa (1600-1868) e a maior cidade do mundo no século XVII; com a Restauração Meiji, passou a chamar-se Tóquio e iniciou um profundo processo de ocidentalização que transformou o Japão em uma potência internacional! A cidade sofreu um grande terremoto em 1923 (relatado por Gichin Funakoshi em “Karate-Do – O meu modo de vida), além de ter sido bombardeada pelos Aliados na Segunda Guerra.


O livro-guia-mapa separa as informações e indicações turísticas por seis regiões, sendo elas: Ginza, Ueno, Asakusa, Odaiba, Shibuya e Shinjuku.


Ginza é apresentada inicialmente com diversas informações culturais, entre elas destaco o palácio imperial construído em XVI, reconstruído em 1968,  tendo sido usado como Fortaleza dos Shogun entre 1619 e 1868; essa parte da cidade oferece uma visão do antigo regime do governo militar/ feudal que teve na figura do “Samurai” um aspecto muito importante na unificação e condução do Japão, expondo uma arquitetura imponente e que marca um dos principais pontos turísticos do país. Em Ginza também é encontrado o polêmico santuário shintoísta Yasukuni-Jinja construído em 1869... Esse santuário é dedicado aos espíritos daqueles que deram a vida pela pátria, incluindo muitos militares japoneses que combateram na Segunda Guerra Mundial, muitos considerados “criminosos de guerra”; quando o ex-primeiro mineiro do Japão visitou o templo, rapidamente surgiu uma dura onde de críticas no Japão e em outros países da Ásia em função dessa questão dos “criminosos de guerra”.

Prosseguindo é apresentado Ueno contendo o jardim mais antigo da cidade ou Koishikawa-Korakoen, datado do século XVII e com uma combinação arquitetônica de elementos japoneses e chineses; também é possível encontrar o Jomyoin com as 84 mil estátuas do Bodisatva Jizo (protetor das crianças), além da livraria Hara-Shobo referência especializada em livros antigos, algo similar ao que conhecemos por “Sebo” aqui no Brasil. Em Asakusa destaco o primeiro bar no formato Ocidental (Kamiya) fundado em 1880, também o Kokugikan ou ginásio nacional de Sumô onde ocorrem as principais disputas da modalidade no Japão; o templo budista mais antigo de Tóquio é o Senso-ji que conta com um peculiar portal chamado Kaminarimon, contendo gravuras dos deuses Raijin (raio/ trovão) e Fujin (vento)... Quem é fã de Mortal Kombat já identifica de imediato as referências.

Odaiba contém uma réplica (maior) da torre Eiffel de Paris chamada de Tóquio-Tower (construída em 1958), contando ainda com o famoso templo budista Sengaku-ji, onde ficam os túmulos dos “47 Ronin” que vingaram o assassinato de seu senhor e cometeram Seppuku coletivo; em Shibuya temos santuário Meiji-Jingu em homenagem ao imperador Meiji (construído em 1920), também o famoso “Shibuya Crossing” ou cruzamento de Shibuya, reproduzindo (bem menor) no bairro da Liberdade em São Paulo. Por fim Shinjuku com a sede da prefeitura de Tóquio, também a Catedral de Santa Maria (construída em 1964, símbolo do Catolicismo no Japão); na página sobre Shinjuku, observando a linha de metrô, encontrei a estação Yoyogi, descobrindo que se trata de uma região, a mesma onde o mestre Morio Higaonna atuou no Yoyogi-Dojo, importante ramo do Jundokan (inicialmente) no Japão! Muitos são os pontos turísticos e curiosos desse guia que pode ser encontrado (atualizado) em diversas livrarias da Liberdade em São Paulo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Zenchishiki - Qualidades de um mestre

O termo “Zenchishiki” aparece no Sutra do Lótus para indicar duas qualidades importantes reconhecidas pelo Bodisatva, qualidades que podem ser aplicadas aos mestres, bem como para a identificação deles... É muito importante falarmos sobre esse tema, uma vez que temos muitos mestres diplomados aqui no Brasil, mas poucos que realmente manifestam as qualidades essenciais de um mestre na vida cotidiana. Recentes acontecimentos atestam para essa realidade e mesmo para uma inversão de valores onde, quem mantêm uma postura adequada é taxado de charlatão ou picareta, enquanto os desprovidos de índole recebem grande reconhecimento da massa; sortudo é quem encontra um mestre em todos os quesitos, não apenas na capacidade de “bater” em outra pessoa, como priorizam muitos estudantes de artes marciais na atualidade – Ser mestre é algo muito além de tudo isso.

Tive a oportunidade de receber instruções de um dos maiores mestres do Karate-Do no Brasil, nos últimos anos de sua vida, além disso sempre gostei de estudar as obras dos grandes mestres do passado para assim conseguir obter o máximo de informações construtivas; mas mesmo assim é muito difícil assimilar todas as qualidades necessárias! Quando me deparei com o termo Zenchishiki, imediatamente associei o melhor resumo para as qualidades de um mestre. No Sutra em questão o Bodisatva contextualiza o termo como “bom amigo, bom conhecimento” e isso é muito profundo, apesar de parecer simples... Na forma como os mestres lecionam atualmente é muito difícil uma atenção integral ou personalizada, portanto o mestre nem sempre se enquadra na qualidade de “bom amigo”, entendendo que “bom amigo” é diferente de “amigo”! Observo que, nem todos que treinam conosco têm a mesma proximidade que tenho com o mestre e isso também é reflexo da índole do aluno.

Existem ocasiões onde treino com meu mestre e outras onde apenas conversamos sobre Karate-Do, sem dizer aquelas onde bebemos cerveja e falamos sobre tudo, menos sobre Karate-Do! Um “bom amigo” compartilha informações sobre tudo, não somente sobre uma prática que realizam juntos, é por isso que todo mestre é “amigo”, mas não “bom amigo”; talvez, para o iniciante, isso não seja tão importante como o estudo das técnicas, entretanto, aprendemos bastante sobre Karate-Do enquanto não estamos falando sobre Karate-Do. Como muitos alunos se aproximam visando apenas graduações ou algum favor é justificável que muitos mestres adotem uma postura mais restrita, podendo assim omitir a imagem de “bom amigo”! Sobre isso costumo usar a frase “o mestre se revela quando o aluno está pronto”... Basicamente, a relação mestre-discípulo é bela e ao mesmo tempo conturbada, basta observar quantos desentendimentos surgiram entre mestres e alunos dentro do Karate-Do, com o inevitável surgimento de divisões o novos grupos.

O segundo ponto diz respeito ao “bom conhecimento”, indicando também que “conhecimento” é diferente de “bom conhecimento”! O bom conhecimento é amplo e não se resume apenas às capacidades e habilidades técnicas dentro de uma arte marcial, mas também aos aspectos filosóficos e espirituais que envolvem o estudo das artes marciais; esse eixo “filosófico-espiritual” é algo que pretendo abordar bastante em 2021, pois se trata de uma área muito importante e negligenciada na prática contemporânea. Existem mestres que foram a Okinawa e trouxeram conhecimentos úteis a nossa prática, mas lhes faltam algo... O bom conhecimento reflete uma perspectiva de mundo diferenciada, ampliada por nossas experiências; muitas vezes o conhecimento destrói o bom conhecimento, pois a arrogância do conhecimento pode nos fechar para outras oportunidades e aprendizados... Conheço karatekas de 1°Dan que acreditam saber tudo, enquanto alguns de 5°Dan e 6°Dan permanecem recebendo instruções.

O mestre precisa ter conhecimento para conduzir os iniciantes, mas também precisa ter bom conhecimento para levar os iniciados ao estágio maior e avançado, caso contrário os iniciados terão uma evolução deficiente... É por isso que existem iniciantes com maior esclarecimento que iniciados no Karate-Do! Mas não se engane, muitos mestres transmitem apenas “conhecimento” propositadamente, pois entendem que o aluno ainda não está pronto. Acredito que essa seja uma forma simplificada para definir as qualidades de um mestre, bom amigo e bom conhecimento, em meio a tanta propaganda e exposições de “grandes mestres” na mídia, muitas vezes pagando quantias altas para saírem em revistas... Apesar de tudo, muitos karatekas ainda vão perder tempo e caráter com pseudo-mestres, dando continuidade ao círculo vicioso que acaba denegrindo mais e mais a nossa arte – Não se deixe enganar, procure bons mestres e não tenha receio em mudar quando perceber algo errôneo na conduta de supostos mestres.